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Moeda Rara

Dobra Pé-Terra

 

A primeira dinastia da monarquia portuguesa teve nove reis, tendo quatro deles cunhado moeda de ouro: D. Sancho I, D. Afonso II, D. Sancho II e D. Fernando I. Este último, que reinou entre 1367 e 1383, deixou para a história da numismática portuguesa uma das suas principais referências, a Dobra Pé-Terra. Batida no início do reinado, é hoje de extrema raridade, devendo existir pouco mais de 20 moedas. Numa das suas duas tipologias apresenta, no anverso, o retrato do rei em pé, sob um arco ogival, com armadura, espada ao alto e a mão esquerda sobre o escudo das quinas, como armas nacionais. No reverso encontra-se uma grande cruz floreada, inscrita em quadrilongo e com uma quina central.

 

A Dobra Pé-Terra inclui-se no grupo de moedas cunhadas na Idade Média que tem raízes no tipo monetário designado por Dupla ou Dobra, de moedas de valor duplo do normal, emitidas pelos berberes Almóadas no século XII e que acabaram por ocupar o lugar do Morabitino como moeda universal. Aquele tipo monetário viria a “inspirar” os monarcas dos reinados ocidentais a cunharem moeda semelhante mas adaptada ao estilo gótico que marcava a cristandade. Em Portugal, aparece em duas moedas de ouro cunhadas por D. Fernando I: a Dobra Pé-Terra e o Gentil. A inspiração para o tipo de figuras inscritas na Dobra Pé-Terra estava numa moeda de Carlos V, de França, o “Franc à pied”, que tinha o rei, em pé e armado, com a espada erguida.

Cunhada apenas na Casa da Moeda de Lisboa – o monarca cunhou outras moedas do seu reinado também no Porto e, devido às suas ambições à coroa de Castela, em diversas cidades castelhanas, como Tui ou Corunha – a Dobra Pé-Terra é hoje uma das moedas de ouro portuguesas mais valiosas. Em ouro o monarca cunhou ainda a Meia Dobra Pé-Terra e o Gentil, outra moeda rara, embora de menos peso e menor teor de ouro. As moedas de ouro de D. Fernando são o testemunho de um estilo artístico próprio da idade medieval, o mesmo que levou à criação das catedrais em ogiva. O monarca mandou também cunhar outras moedas, em prata e bolhão, que surgiram a partir de 1369 quando já se fazia sentir na economia os efeitos das guerras com Castela.

 

O rei D. Fernando subiu ao trono com 22 anos de idade. O cronista Fernão Lopes definiu-o nos seguintes termos: amava a justiça, era prestador e muito liberal; fez muitas doações de terras, amou muito o povo e trabalhava de o bem reger; todas as coisas que mandava fazer eram fundadas em boa razão e justamente ordenadas; desfaleceu quando começou a guerra e nasceu outro mundo muito contrário ao primeiro. A sua morte provocou uma crise dinástica no reino, cuja regência ficou a ser exercida pela mulher do rei, D. Leonor Teles, próxima dos Castelhanos. O tratado de Salvaterra de Magos, assinado entre D. Fernando e o monarca de Castela, D. Juan I, em 1383, estabelecia que caso o monarca português falecesse sem deixar filho varão legítimo, o rei castelhano e a sua mulher, D. Beatriz (filha de D. Fernando I) seriam reis de Portugal. Esta situação não foi aceite pela maioria dos portugueses que, liderados por D. João I e D. Nuno Álvares Pereira enfrentaram e venceram o exército castelhano na batalha de Aljubarrota.

 

Além da crise dinástica, o reinado de D. Fernando I ficou ainda marcado por uma crise social e económica, embora o monarca tenha tomado decisões estruturantes para o futuro do reino como foram o caso, por exemplo, da Lei das Sesmarias, da fundação da Companhia das Naus e da reforma da administração pública.